Uma competição macabra ou um comportamento cruel?


E aí, tudo bem? Aparentemente, é uma pergunta sem qualquer objetivo, um cumprimento, uma saudação. Quem te faz esta pergunta (ou quando você a faz) não deseja, realmente, saber o que se passa com o outro. É apenas um "oi".

Esta, e outras tantas formas que usamos para simbolizar este mundo corrido, os jargões usados pelos amigos, as formas corriqueiras... se forem interpretadas, ao pé da letra, pareceremos as pessoas mais legais do mundo...

Querendo saber como estão os outros, se colocando ao dispor "para o que precisarem". Conte comigo, a qualquer hora, em qualquer lugar.

Mas não demonizemos os outros. Fomos criados para parecermos legais. E usamos essas expressões como meras ilustrações, sem qualquer importância, apenas mantendo um protocolo de convivência.

Mas, por um momento, imagine... imagine se você pergunta a um colega se está tudo bem com ele, passando num corredor qualquer. Após a pergunta corriqueira, ele pega no seu braço e diz que não está nada bem... e começa a despejar um monte de lamúrias e insatisfações.

Você fica pensando que talvez não mereça aquilo, mas foi você quem perguntou.

Experimente fazer ao contrário. Quando alguém te perguntar se está tudo bem, responda de verdade. E você vai ver como a pessoa reage.

Somos competitivos. A quase totalidade dos seres humanos, que vivem nesta sociedade insana, possuem um comportamento de competição. É a busca constante que vivemos... como disse o psicanalista Contardo Calligaris, somos forçados a viver na insatisfação, para que sempre estejamos correndo atrás... buscando satisfazer, seja lá o que for.

Viver na insatisfação nos coloca numa posição de desfavorecimento, diante da sociedade, diante do próximo, do outro, do amigo,

Repare bem... quando você conta a alguém sobre um problema, uma dificuldade, uma dor física... você sempre ouve dele algo similar.

Noutro dia, conversando com um amigo, disse a ele da inflamação que tenho na base da coluna... o quanto aquilo me incomodava e o quanto doía... O cara estava sempre bem, mostrando sempre que estava tudo ok... de repente, ele despejou tantos problemas de saúde que quase ligo para o SAMU (aliás, o número do SAMU é 192... não se esqueça!).

O cara começou a falar e eu lá olhando pra cara dele e pensando: "caraca, o cara tá mal... ou está maluco. A sensação que eu tive foi a que ele queria ganhar! Isso mesmo... ganhar de mim, no problema de saúde.

Conte a alguém que seu emprego está em perigo. Logo, vai ouvir dele que está prestes a ser demitido, que o chefe o odeia, que sofre bullying no trabalho, que tem frieira no pé e o cacete!

Fale que está sem dinheiro, endividado. Logo, aquele seu ouvinte, também te contará que está encalacrado de tantos problemas, dívidas, despesas de hospital... Chega a ser engraçado. O que seria isso? Medo de encarar um pedido de dinheiro emprestado? Quanta bobagem... é só dizer não.

É impressionante reparar como sempre vai haver sempre alguém pior que a gente, quando contamos alguma coisa, não tão boa. Mesmo que não esteja tão mal assim... Seria isso um tipo de espírito competitivo? Ou medo de assumir que está mesmo tudo bem e correr o risco de sofrer a inveja daquele, menos favorecido, naquele momento?

Para que não nos sintamos na "obrigação" de oferecer ajuda a quem nos revela qualquer dificuldade, nos nivelamos por baixo, mesmo para dizer, indiretamente, que não podemos ajudar... Daí, despejamos naquele que já está mal, nossos problemas imaginários, e até mentiras... tudo para fugir do outro e daquele astral pesado.

Competição ou não (é claro que eu puxei um gancho para falar do assunto), esta forma de se relacionar mostra uma enorme impessoalidade, mesmo entre amigos. Para alguém que te confidencia um problema, seja uma unha encravada ou câncer na família, agir de forma impessoal é a maior das crueldades. É querer sair bem de uma saia justa, mas que se transforma em desfecho cruel.

Pra que falar de lamúrias a alguém que te escolhe para desabafar problemas? Para fazer com que se sinta melhor em ver que não é o único com problemas? Seria nivelar a coisa por baixo, para fazer sentir-se melhor? Tantas perguntas... e acredito que, cada caso, é um caso.

A única coisa que penso, na verdade, é que somos sim, muito competitivos e que este comportamento nos blinda, como defesa de qualquer mal, dentro do nosso espectro de crenças, medos e superstições.

Temos uma vida corrida e vulnerável demais. A competição nos transforma em potenciais egoístas, sempre lutando por uma parte no bolo, um quinhão qualquer, para que nos sintamos menos mal, diante de tantas perdas.

Somos massacrados, diariamente com preços altos, impostos, leis injustas, corrupção. Sofremos demais, vendo mortes na TV, violência desmedida. Isso tudo, e mais tantas outras coisas, nos transformam em bichos na selva, onde garante o almoço aquele que briga mais, que cede menos, que fala mais e ouve menos. Estamos mesmo caminhando para sermos selvagens competitivos...

Desde pequenos, criamos nossos filhos a serem os melhores, a se destacarem. Berramos como loucos nas escolinhas de futebol e cursos de artes, alardeamos o talento de nossos pequenos... e, só aumentamos neles, o sentimento de fracasso e frustração, à medida que não conseguem corresponder à enorme pressão que exercemos sobre eles...

Muitas vezes, são as frustrações dos pais que são passadas aos filhos, como heranças de vida. Esta é a pior das heranças...

Farinha pouca, o meu pirão primeiro. E é sob a ordem desta lei, vamos vivendo... seja para o bem (trabalhando mais e mais), ou para o mal, não deixando que o outro seja mais que a gente, mesmo que esteja mal... é como inverter a polaridade das coisas...

Quanto mais alguém fala que está bem, mais inveja desperta. Mas quando fala que está mal, sempre tem alguém pior que ele. É algo que merece estudo, ou no mínimo, uma poderosa e minuciosa observação.

De qualquer forma, viver é um desafio incrível. E viver numa sociedade viciada, é mais desafiador ainda. Que possamos ver a competição como um se fôssemos o componente de um time, onde cada um é uma peça, estrategicamente colocada naquela posição, e que colabora para chegarmos, juntos, ao gol, à cesta, ao ponto...

Seja lá qual for o resultado do jogo da vida, o que importa mesmo não é nem o competir... e sim, se divertir e tirar de cada jogo, cada lição, cada lance, o melhor. Que possamos sentir o que a vida significa, sem essa de querer sobressair... 

E, sendo inevitável a competição, que seja no espírito do desporto, onde se ganha e perde, mas se mantém a boa essência, o caráter e a dignidade.

Je ne suis pas Charlie!


Aqueles que me conheceram nos tempos idos, poderiam até dizer que eu era um palhaço. Para quem me conhece de verdade, diz que eu tenho alma de humorista.

O humor é um dos componentes que renovam a alma. Muito mais do que fazer rir, fazer humor é enxergar o mundo através de lentes otimistas, que dão novo sabor aos desafios da vida.

Rir é o melhor negócio, o melhor remédio... Eu poderia aqui, citar uma centena de grandes humoristas que passaram pela minha vida. Uns me fizeram rir; outros, me deram dor no maxilar, de tantas e tantas gargalhadas. Até hoje, quando lembro de certas piadas, ou mesmo da cara de alguns desses gênios, eu tenho vontade de rir.

Na verdade, esses caras, verdadeiros heróis da vida da gente, precisam estar presentes dentro de nós. Pois, nas horas ruins, eu lembro deles, de alguma passagem... logo o meu semblante muda e eu mudo o foco da coisa, seja lá o que for.

À medida em que o mundo gira, as coisas mudam... e esta constante mudança é o que se chama de evolução. Há vinte, trinta anos atrás, a vida era bem mais difícil. Para cada conquista, sangue, suor e lágrimas. O acesso era difícil, as comunicações, tudo...

A evolução, como eu sempre costumo dizer, nem sempre é uma coisa boa. A necessária e inevitável mudança também não é sinônimo de melhoria... assim como a facilidade, o acesso e a agilidade do atual e moderno mundo, também não são certeza de melhoria do mundo.

Muitas vezes, a coisa está ruim, mas se melhorar, estraga! Confuso? Também acho...

Uma vez, escrevi um pensamento sobre o pacote de biscoitos São Luiz... o atual Bono, da Nestlé. Eu adorava aquele biscoito... era feito de chocolate mesmo, derretia na boca. O pacote tinha 275g. Hoje em dia, o "mesmo produto" tem 175g, o dobro do preço real e um chocolate que parece raspa do resto. O biscoito é duto e o açúcar, enjoa... Enfim... o mundo mudou e o biscoito Bono, também. Mas, apesar de tanta tecnologia e agilidade industrial, o produto piorou... e muito!

Assim são as coisas. Repare bem... olhe em volta. Pense na sua vida. As coisas estão num processo de deterioração terrível, apesar de o mundo está ficando mais acessível.

Eu tenho quase 48 anos. Já vivi bastante (para meus padrões)... e me considero um cara rodado, experiente... a cada dia, me surpreendo com uma nova coisa, mas nada mais me tira o chão.

Acompanhando o processo de mudança do biscoito, o humor também sofre profundas modificações e, esta mudança, em minha opinião, reflete numa piora vertiginosa, de qualidade.

Não é generalização... pois, existem grandes humoristas, desta nova safra.

Lembro que, na finada "Escolinha do Professor Raimundo", do genial Chico Anysio, lançava grandes nomes do humor. E já naquela época, a safra já não era das melhores... Mas hoje em dia........

Os humoristas dos dias de hoje, apesar de disporem de um "volume de inspiração" muito maior, assessorias de criação, acesso cavalar à informação, não conseguem fazer um humor de qualidade. Exceto raras exceções. Normalmente, você vê humoristas abordando temas polêmicos para ser engraçado. Usam a técnica do stand up americano para se comunicar com o público brasileiro. Falam do suburbano, do gordo, do negro, do viado (pode falar viado?), do mal empregado... Lá, isso pode até funcionar... Mas, nosso público é diferente.

Uma vez eu assisti a um show (pelo YouTube), do Tom Hanks, que começou a carreira fazendo pequenas apresentações. Apesar de criativo, as piadas eram tão locais que não consegui rir muito. E olha que eu sou fã desse cara até debaixo d'água. Humor regional, específico... muitos filmes de comédia, os enlatados, precisam de alteração nas legendas e na dublagem, para o público nacional entender...

Catei uns show de humor, também no YouTube, e assisti a um "show" de um cara que está na crista da onda, faz até apresentação de programa, na TV. Na "minha" opinião, foi um show de horrores. Na boa, não consegui rir. Ficava até constrangido, com vergonha alheia, de certas piadas... na minha opinião, um show de bestialidade.

Eu eu nem falo da questão do preconceito... afinal, o falecido Costinha, um grande performer de humor, era um cara extremamente machista e homofóbico, em suas piadas. Mas, o jeitão dele de falar as coisas, de contar as piadas, davam um tom hilariante a cada aparição.

Os humoristas de hoje, usam terno e gravata, vivem como estrelas de rock e se acham as maiores sumidades da inteligência, deste mundo pobre. É de dar dó.

Com tanta badalação em cima do pasquim francês, o Charlie Hebdo, recentemente atacado por extremistas religiosos, matando 12 de seus profissionais, eu fui olhar o jornal. E, lendo sobre o "humor" que praticava, pude entender o ódio que gerava.

Muitas vezes, a liberdade de expressão é como cutucar a onça com vara curta, no meio da floresta, a noite. O humorista fala, escreve, desenha o que quer e só quer risos das pessoas? Em algum momento, a piada é contra você... e tenho certeza que você não vai sorrir.

Volto a falar: "quem bate, esquece; mas quem apanha...". O humor dirigido a desdenhar e ridicularizar o outro, é uma faca de dois gumes. Aqueles que não se sentem atingidos, podem até rir da "genialidade" e tirada do humorista. Pode elogiar suas percepções e etc... Mas, aquele que teve sua fé, crença e ideal desdenhado, ridicularizado por uma visão torpe, tenho certeza que não vai rir, e muito menos, enxergar o lado bom da visão e percepção do humorista.

O Charlie, que tive a oportunidade de folhear, na semana passada (com a ajuda de um tradutor), não é engraçado... nem visionário, muito menos inteligente. Ele fala de um ponto de vista e carimba as ofensas como peça de humor.

Essas (e outras) manifestações, ao invés de colocar os assuntos, em mesa, para um estímulo à tolerância, ou mesmo a aceitação do modo do outro, estimula o preconceito, o ódio contra judeus, muçulmanos.

O humorista também tem teto de vidro (e quem não tem); e fazer humor com o "defeito" do outro pode ser um tiro no pé.

tenho certeza que os anti semitas adoram o Charlie. Mas só vão adorar suas piadinhas, até que o pasquim francês ridicularize o antissemitismo. Assim como qualquer outro tipo de preconceito. O humor só é engraçado quando não atinge nossos pilares... E se você não é muçulmano, nem judeu, deve mesmo adorar o Charlie e levantar aquela plaquinha preta, dizendo: "Je suis Charlie".

Pois eu não sou Charlie. Apesar de reprovar com total veemência os ataques da última semana.

Convenhamos... se você subir o morro do Turano (uma favela perto da minha casa), e gritar contra os negros, falar mal das drogas ou exaltar a polícia, mesmo que você seja a pessoa mais engraçada do mundo, você vai morrer. Mexeu com gente que não sabe conversar, com pessoas que só entendem a linguagem da bala (de revólver).

O que o Charlie esperava, falando, por tanto tempo do Maomé? O pessoal lá do Oriente Médio, os que fazem parte de organizações terroristas, também não tem muita papa na língua. Os caras resolvem tudo, como a Valesca Popozuda diz naquela funk, ou seja: "só tiro, porrada e bomba". Não esperem que muçulmanos riam quando falam mal do seu Deus. Não espere que judeus sejam fãs do Charlie, que façam fila nas bancas, para pagar os 3€ semanais.

Aliás, falando do jornal, após esta confusão com os terroristas, o Charlie sairá, depois de amanhã (dia 14), às bancas, no mundo inteiro, com a tiragem de TRÊS MILHÕES de exemplares, e vendido em 6 IDIOMAS (inclusive, em Português). Bem acima dos sessenta mil semanais, em francês.

No fundo, no fundo, sem fazer piada ou ser maldoso, para os acionistas do pasquim francês, essa coisa toda foi uma grande jogada de marketing, aumentando muito as vendas do jornaleco.

Para os que morreram, o preço foi altíssimo. Pagaram com seu próprio sangue. Mas para os que ficaram, logo estar]ão angariando os louros dos lucros.

Esta comoção mundial, manipulada pela imprensa, fazendo do Charlie a vítima do mundo e usando este tema para defender uma liberdade de expressão que só ajuda a deteriorar o mundo, começa a fazer sentido, para mim. Na minha cabeça, tudo é parte de um grande jogo de interesses. A imprensa (principalmente a brasileira) adorou esta cena de horror.

O tiroteio no Charlie é, para muitos, o Álibi perfeito para aqueles que usam a máquina da mídia para manipular o povo, se disfarçando de imprensa.

Definitivamente, eu não sou Charlie!

Ousadia, desrespeito e... intolerância!


Noutro dia, passando perto da estação do metrô, próximo à minha casa, eu vi um cara morto. Curioso, estiquei o pescoço e fiquei sabendo que o cara era um usuário de drogas, morto por uma dívida de R$ 50,00 com algum traficante, fornecedor de drogas...

A sensação, naquele momento, foi a de me perguntar: "Aonde vamos parar, com tanta violência?".

Realmente, a banalidade, se espalha como um vírus do mal, entre as pessoas e as toma cada vez mais frias, mais insensíveis. Passam a olhar a violência como coisa corriqueira, como se houvesse uma invisibilidade, não notada pelos que correm atras da vida.

Aos poucos, no passado e, de forma mais acelerada nos dias de hoje, essas coisas terríveis se repetem, e alternam horror com terror. Pessoas estão morrendo por nada.

É vizinho matando vizinho, filho esquartejando pai. Empregado matando patrão.

De repente, a sensação é que estamos perdendo a capacidade de conversar, de nos entender e estamos cada vez mais, tomados por sentimentos fétidos, como vingança, por exemplo.

Na faculdade, certa vez, um grupo de alunos, destruiu o carro de um professor, após uma prova difícil. E já vi casos de pais segurando um menino, para que seu filho pudesse bater nele.

Já presenciei também, um "show" de um humorista, desses de "stand-up comedy"... onde o astro do show quase levou às lagrimas, uma mulher, humilhada, por ser chamada de gorda. Que tipo de artista é este? Será que ele representa a classe artística? Na minha opinião, era só um imbecil grosseiro, se achando engraçado. Mas é só minha opinião...

Estamos intolerantes demais, em todos os sentidos. E eu poderia falar aqui mil casos bizarros desses. Muitos que li, outros que soube e, alguns, que até presenciei.

Uma das frases mais certas que já ouvi é: "quem bate, não lembra; mas, quem apanha, não esquece, jamais!" Eu concordo... mesmo não compactuando dela.

Pessoalmente, sou um banana. Mesmo que eu nutra algum sentimento ruim por alguém, não sou capaz de me vingar, de dar o troco. Eu me calo, me isolo e apago a pessoa de meu HD. Preciso de ajuda? Acho que faço parte de uma minoria, pois, todo caso que vejo, tem gente se vingando, usando a violência ou não.

A intolerância parece mais presente, desobedecendo a tendência do mundo, que prega em sermos mais tolerantes. Parece que fazemos de sacanagem. Quanto mais dizem mal das drogas, mais cresce o número de drogados; quanto mais se fala em corrupção, mais corruptos afloram. Quanto mais pedem para sermos tolerantes, mais intolerantes ficamos.

O principal assunto que mobilizou o mundo, neste último dia, foi o tiroteio em Paris, culminando com a morte de 12 pessoas, profissionais da mídia francesa, que atuavam na revista Charlie Hebdo, um folhetim de humor que satirizava, com ousadia, a diversas personalidades do mundo (políticos, religiosos, celebridades).

A ação, também chamada de atentado terrorista, parece ter sido motivada como vingança de grupos extremistas, após seguidas sátiras ao Profeta Maomé. Abaixo, cartunistas famosos por sua ousadia, da revista francesa:


Fotos de arquivo mostram cartunistas da equipe da revista 'Charlie Hebdo' mortos no ataque. Da esquerda para a direita: Georges Wolinski (em 2006), Jean Cabut - o Cabu (em 2012), Stephane Charbonnier - o Charb (em 2012) e Tignous (em 2008) (Foto: Bertrand Guay, François Guillot, Guillaume Baptiste/AFP)
Há uma comoção mundial, onde pessoas, nas principais cidades do planeta, viraram a noite, em protestos silenciosos contra o terrorismo e a lutando pela liberdade de imprensa, a famosa liberdade de expressão. Este espaço que escrevo é prova da liberdade de expressão! Aqui, eu falo o que quero e como quero.

Je suis Charlie (ou, em português, "Eu sou Charlie"), se referindo ao apoio à revista francesa, pessoas ergueram cartazes neste protesto que ganha cada vez mais adeptos.

É fato que estamos cada vez mais intolerantes. É fato que estamos sem capacidade de diálogo e resolvendo tudo na base da porrada. Sabemos que toda ação, gera uma reação. E, nos dias de hoje, reações até desproporcionais. Então, porque diabos, uma revista fica sacaneando a fé alheia? Por que mexer com coisas tão pessoais como a fé. Ainda mais do povo islâmico, que já tem a fama de esquentadinho.

Não estou defendendo o terrorismo, tão pouco apoiando o ataque. Acho que esta ação é uma das provas de violência mais cruéis. Os assassinos estudaram bem o local onde chacinaram as pessoas. Chamavam os caras pelos nomes, antes de atirar em suas cabeças. Mataram, a sangue frio, co o quem passa manteiga no pão. A coisa foi premeditada.

Mas, olhemos o lado de quem apanha... O lado de da criança que sofre bullying, do empregado que sofre assédio moral, da mulher humilhada em sua própria casa e dos fanáticos religiosos do "lado de lá". O que se espera de quem sofre violência, seja da forma que for? Mais violência... e desproporcional.



Infelizmente, eu não compactuo com a unanimidade, em apoio a este liberdade de imprensa. Na verdade, eu nem enxergo como imprensa, um cartunista ridicularizar Jesus, ou mesmo o Projeta Maomé (ou seja lá qual for a denominação religiosa deste conceito). Eu não penso que foi uma injustiça. Mas vejo com olhos medonhos os assassinatos.

A linha de ação e perfil editorial de um veículo de comunicação atende a diversos interesses... que variam entre a mera informação e objetivos comerciais, de fazer grana... passando por coisas políticas, entre outras.

Eu me solidarizo com o povo, com os franceses, que perderam entes queridos, que faziam seu trabalho. Mas fico cheio de dedos ao avaliar as consequências da instituição.

Acho que o "Charlie" exagerou em sacanear tanto o Maomé. Mexeu com brios extremos de pessoas altamente intolerantes. E o preço de tanta ousadia, pode ser qualquer coisa. Os atentados de 11 de setembro, foram retaliações e todos os outros atentados sempre se referem a algum tipo de vingança.

A intolerância só existe porque o respeito se perdeu. As fronteiras entre os conceitos, as pessoas, deixaram de existir e todo mundo se acha no direito de meter o bedelho no nariz do outro. Tem gente que se cala, se isola. Mas tem gente que se vinga... e a vingança é sempre mais poderosa, pois vem carregada de uma energia enorme e desproporcional.

Acho que só conseguimos curar o mal da intolerância, se entendermos que o outro (seja lá quem for) tem sentimentos, e que é imperativo que seja respeitado.

Com o mundo tão ruim e as pessoas tão intolerantes, ser ousado é ser corajoso ou irresponsável?

Em nome dos franceses, expresso meus profundos sentimentos, de pêsames.

O nó, o laço e a frágil folha de papel crepom


Não é de hoje que se fala muito na mudança de um dos grandes pilares da sociedade: a família. Vemos a discussão sair dos lares, invadir as redes sociais, balançar estruturas das diversas igrejas e denominações... Até na política parece haver uma distinção clara de quem é conservador ou apenas está deixando a evolução fazer seu papel.

A despeito de tanta energia, o fato é que a família está em pleno processo de revisão, releitura ou o que você entender, desde que não esteja parada, estagnada.

Hoje, vemos famílias de todos os tipos... A velha e tradicional receita de bolo ganhou inúmeros ingredientes que fazem, inclusive nem ser mais bolo. Não existe mais forma, não existe mais tipo. A família ganhou múltiplos significados que o dicionário precisa ser revisto.

Por um lado, que bom! Afinal, o mundo gira e, em cada volta, novos pensadores, novos executores. As pessoas crescem, pensam, evoluem.

Eu sempre bato na mesma tecla em dizer que mudança ou evolução não são, necessariamente, coisas que vão melhorar o que já existe. A evolução é um trem-bala sem freio, desgovernado e que não atende a nenhuma regra. A mudança também não tem freio, mas não chega a ser um trema-bala. Mudar e evoluir são coisas inevitáveis... agora, melhorar, é outro conceito.

Como todos sabemos, família é um bem ou mal necessário. Afinal, nascemos naquele núcleo e, com ele, somos obrigados a conviver, a respeitar.

"No meu tempo", pai e mãe, ou qualquer outro ente familiar, sendo mais velho, exigia respeito, somente pelo 'título' que possui naquele núcleo. Os pais olhavam pra gente e a gente já sabia que estava fazendo algo errado e logo parava de fazer... Os avós eram um tipo de instituição sagrada (pais e mães duas vezes), exigiam respeito.

Naquele tempo (no meu) e em outros tempos passados, a "chinela cantava". Para cara cagada feita, tome pancada. Existia também a palmada, a palmatória, entre outras formas de castigo.

Aliás, o castigo era um tipo de tônica para se formar uma pessoa. Pais recorriam à pancadaria para colocar a pessoa na linha. Exceto um ou outro desgarrado que nem na pancada tomava jeito. Mas, normalmente, o couro comia solto.

Bem ou mal, as coisas caminhavam. As gerações passavam e a cada filho que se tornava pai, um tipo de tolerância, ou benevolência ia tomando conta do mundo. À medida em que o tempo passava, crianças cresciam com mais liberdade de expressão... e, por consequência, com personalidades mais arredias.

O respeito foi, aos poucos mudando de conotação. Antes, o medo de apanhar imperava e, aos poucos, a admiração e outros valores mais 'nobres' pareciam tomar conta das famílias. O crescimento do diálogo também parece que aproximou mais os entes queridos.

Adventos como televisão e, ultimamente, Internet, trataram (e tratam) de formar opinião, emplacar tendências e definir novos mecanismos de educação.

O papel da escola, que antes funcionava como complemento da educação familiar (além da educação acadêmica - óbvio), tem hoje, papel muito mais presente na formação e relacionamento intra familiar, de seus alunos (também chamados de clientes).

Uma coisa que parece ter ficado constante é o conceito que os filhos obedecem e respeitam os pais e acatam suas ordens. Esta regra, antes máxima, hoje também passa por um processo de brutal enfraquecimento.

Com a expansão avassaladora das personalidades dos novos pequenos, os pais, que também receberam uma educação mais branda e condescendente, passaram a abrir muitas exceções, tornando o convívio em família mais, digamos, democrático.

Os pais foram perdendo força e autoridade. Os filhos, ganhando espaço, através de seus desejos... Há aspectos óbvios que não dá para escrever neste pensamento. Caso contrário, não seria um texto, e sim, um livro. Mas a culpa dos pais, por terem de trabalhar tanto, aumentando suas ausências. Filhos criados por babás, empregadas ou simplesmente largados em casa sem supervisão, também podem dar inúmeras outras conotações a esta transformação familiar.

Posso até abordar este lado com mais calma e detalhes. Caso haja um contexto, ou mesmo, uma oportunidade.

O fato é que a evolução da família, nos últimos cinquenta anos (para não ser tão extenso), transformou o que, antes era um nó, em laços de família. Antes, a coisa era na base da porrada, na marra. Era um nó cego. Você nascia ali e ali permanecia preso. Acatava as decisões de seus pais, seguia a profissão da família e, muitas vezes, vivia infeliz, por não ter tido a chance de se expressar.

Este nó também mudou. Se transformou num tipo de laçarote, vistoso, bonito. Os princípios de democracia passaram a ser mais presentes das dinâmicas familiares...

E hoje?

Há um tempo (curto) atrás, conheci uma família modelo. Uma bela foto num lindo porta-retratos. Pai, mãe, irmãos. Haviam avós maternos e paternos. O time estava completo. Mas, aos poucos, convivendo com aquelas pessoas, comecei a perceber que haviam diversas dinâmicas, que tornavam as coisas, por muitas vezes, tensas.

Não que fosse uma família de fachada. Claro que não! Mas, me mostre aí uma família perfeita...

Aspectos legais, do tipo lei do divórcio, dispositivos de defesa das mulheres, fim do crime de adultério... coisas assim também contribuíram para deixar a coisa ainda mais aberta e sem controle.

Vez ou outra, damos de cara com coisas estarrecedoras, do tipo: "irmão mata irmão", "pai mata filho (e vice-versa)".

Estaria o mundo enlouquecido e abandonado o conceito de família?

No início deste pensamento eu falava em transformação, em mudança de configuração. Mas será que a família, ou o conceito de viver e conviver sob o mesmo teto, amando uns aos outros, até se diluindo numa nova denominação? Pode ser...

As drogas, cada vez mais presentes nos lares e escolas estão fazendo um papel determinante para suplantar o amor entre familiares. A abstinência de um filho drogado o faz "esquecer" do amor que sente por sua progenitora e chega às raias de enxergá-la, até como inimiga, dentro de casa.

A dissolução (ou enfraquecimento), aliada a um estilo de vida mais 'moderno', estão fazendo com que as famílias sejam menores, com menos filhos.

A crescente onda da liberação sexual, a adoção de comportamentos homo e bissexual, também colaboram para projeções pessimistas, inclusive, do ponto de vista demográfico, mostrando um futuro sombrio à humanidade, com uma curva crescente cada vez mais lenta de nascimentos x falecimentos.

Vai chegar um ponto que as mortes serão mais presentes que as novas vidas e o mundo entrará num tipo de contagem regressiva.

É claro que estou sendo até dramático. Estou apenas, conjecturando sobre as inúmeras formas e configurações familiares. Mas todas são, pelo menos, para minha lógica, factíveis e reais.

Hoje, vejo laços familiares completamente frouxos. Mal vejo faixas se entrelaçando. O que, um dia, foi um nó, hoje, nem sei mais o que é.

Pais inseguros, mentirosos, mal formados e pouco informados, além de terem comportamento ausente, formou filhos que não os admiram e, consequentemente, não enxergam, com exatidão, a hierarquia familiar. Não entendem o porquê devem respeitar os pais, já que eles mesmos não se dão aos respeito.

Hoje, o comportamento, o respeito e a reverência não dependem mais desta hierarquia. O laço se foi e hoje são apenas pessoas lidando com pessoas. A velha autoridade paterna está em extinção.

Filhos cada vez mais mal educados, rebeldes, por culpa dos próprios pais, elegem seus próprios valores, de acordo com o que aprendem na vida, com amigos, colegas, no portão da escola, nas novelas, e muito mais na Internet, em todos os seus infinitos ambientes.

Já presenciei cenas, onde filhos mandam pais se calarem... e eles se calam. O silêncio dos pais nada tem a ver com o silêncio de inocentes. São eles os principais responsáveis pela perda do respeito, dentro de sua própria casa. Mas também, tiveram professores (seus pais) muito debilitados, que por sua vez, também tiveram queda de qualidade do que aprenderam de seus pais... É uma corrente sem fim, que desemboca nos dias de hoje.

Definitivamente, os laços se foram, os nós se dissolveram e os vínculos estão em progressiva extinção. Muitos filhos não só não respeitam seus pais, mas não enxergam neles a autoridade necessária a formá-los.

Vemos guros de 13, 14 anos achando que sabem mais da vida que seus pais e fazem ouvido de mercador a cada ordem, orientação. Debocham de sua autoridade e zombam do que são.

Os pais, por sua vez, lamentam, em silêncio suas incapacidades e limitações. Secretamente frustrados encenam o papel de pais na presença de terceiros, para, simplesmente, mostrar.

Já vi casos em que os pais combinam com os filhos que, "na presença de terceiros, mostraremos que somos uma família". "Quando forem embora, pode voltar a me ignorar". É de matar... ou de morrer.

Para onde caminha a família, eu realmente nem quero ver. Na verdade, nem sei se terá este nome. De repente vira um "grupo". O fato é que a pirâmide se inverteu e está tudo de cabeça para o ar. A confusão está geral e não sabemos mais quem manda em quem.

Acho também, que é uma situação sem volta. Não haverá retrocesso. Pais, filho, avós, tios... talvez tudo explodirá numa nova ordem.

Abandono de incapaz, violência contra a criança e adoção ganhando força. Pessoas se devotando a animais domésticos, casais homo afetivos que não querem filhos (alguns poucos querem), mulheres focadas em suas profissões, que se recusam a engravidar (algumas querem filhos). Concordando ou não, é a evolução do planeta... das pessoas, da sociedade.

A família, que hoje é apenas uma folha frágil de papel crepom colorido... Mas, ainda assim, continua a ser o porto seguro de muita gente... o refúgio, o travesseiro, a casa, o lar. Apesar de perder força, a cada dia, ainda é o lugar onde nos encontramos como somos, sem fingimento... e somos aceitos. Ainda...

E assim vamos vivendo... Na verdade, o que antes era um nó, em barbante de corda, se transformou num belo laço familiar e hoje, é... sei lá, o que é...

Abaixo do volume morto


Conhece aquela frase, que diz: "nada é tão ruim, que não possa piorar...". Ruim, começar um pensamento falando de coisas ruins. Mas eu prometo que vai melhorar...

Noutro dia,  após uma sequência terrível de acontecimentos lamentáveis, eu me virei aos céus e imaginei que as coisas pareciam ter chegado ao fundo do poço. Desventuras, decepções, desapontamentos... coisas que realmente tiram qualquer um do sério.

Daí, eu me lembrei do tal conceito que está muito em moda, chamado "volume morto". E, ao contrário do que se possa pensar, o reservatório de água que fica abaixo das comportas das represas, mesmo tendo um nome fúnebre, foi a salvação da lavoura, das localidades que já clamavam por água, fazia tempo.

No campo da vida cotidiana, podemos entender o volume morto como uma reserva extra de energia positiva, após alguma terrível constatação de que chegamos ao fundo, ao chão.

Quando vivemos crises terríveis, na vida, temos a tendência a nos vitimar, diante das circunstâncias que nos pressionam e nos carregam para baixo. Tudo que acontece com a gente, que não seja positivo ou construtivo, ou mesmo que tenha uma perspectiva boa, vira um drama. Quando se está na pindaíba, qualquer topada da quina da mesa vira um drama.

Quando tivermos a sensação de ter chegado ao fundo, precisamos acessar o nosso volume morto interior. Aquela reserva extra de potência, aquele sorriso extra, diante de todas as situações, que parecem adversidades.

Quando se olha a dificuldade nos olhos, algo muda dentro da gente... e quando sorrimos, diante dessas dificuldades, como se, inconscientemente agradecendo por mais este aprendizado, a vida dá um jeito de te ajudar a sair daquela situação sinistra, que você entrou.

De vítimas, nada temos. Não somos o elo frágil do processo de crescimento. Nós somos o processo em desenvolvimento... e a cada novo ciclo, nos fortalecemos, nos solidificamos, amadurecemos. A cada volta, mais fortes ficamos.

Quando nos vitimamos e baixamos a cabeça, lamentando passar por uma fase ruim, nos colocamos passivamente no processo e damos ao acaso (ou como você quira chamar) o poder de nos carregar, de nos manipular e, consequentemente, de nos empurrar para cada vez mais baixo... É como se entregar ao fracasso e abdicar de lutar...

Já vi muita gente por baixo, lutar, pelo simples fato de se recusar a ficar parado. E, a luta não nos garante a vitória, mas alimenta nossa alma, nossos brios e nossas energias.

Dento de cada um de nós, há um volume morto, que pode ser acessado, mesmo quando você acha que nada mais pode piorar. É o aviso que a vida te dá, que você ainda está vivo, que pode virar o jogo.

Mais um ano começa hoje.

Para muitos, energias renovadas para encarar o bate-estaca da vida. Para outros, apenas mais um dia comum de sol de verão. E, independente do simbolismo deste dia universal, é hora de reunir as forças e arrancar mais um suspiro de seu velho peito e, ir à luta.

Use o que há de mais nobre dentro de você, a genuína fé em Deus. Concentre-se na sua fé... resgate, dentro de você, o pensamento positivo. Visualize os novos tempos...

Como Deus é onipresente por definição, quando você for buscar suas forças naquele seu volume morto, lá Ele estará também! E, dependendo do tamanho da tua fé, da sua força e intensidade, encontrará Deus também, abaixo do volume morto...

Problemas, todos temos. E é a forma como encaramos a coisa é que nos diferencia.

Mais uma vez, feliz ano novo. Acessa o teu volume morto e vai à luta!